Crise na AMS | Petroleiros denunciam precarização no atendimento e falhas no Programa Cuidar

Trabalhadores relatam escassez de médicos, negativas arbitrárias para medicamentos contínuos e de alto custo, e pedem o retorno da administração do plano de saúde para a Petrobras; outro lado: empresa alega ampliação de agenda e período de transição para “canetas emagrecedoras”, mas prática desmente justificativa oficial


O acesso à saúde suplementar tornou-se um ponto crítico para os trabalhadores da Petrobras. Neste primeiro semestre de 2026, dirigentes dos sindicatos filiados à Federação Nacional dos Petroleiros (FNP) têm recebido constantes relatos de Norte a Sul do Brasil que escancararam um cenário de insatisfação generalizada com a Saúde Petrobras (AMS).

O estrangulamento no atendimento, a burocracia na liberação de medicamentos e a falta de profissionais credenciados, que impedem ou em muito atrasam o efetivo atendimento dos trabalhadores, encabeçam a lista de problemas que afetam diretamente o bem-estar de milhares de famílias petroleiras, levantando inclusive o debate sobre a necessidade de o plano de saúde voltar para a administração direta da companhia.


O gargalo do Programa Cuidar e a crise do GLP-1

Um dos pontos de maior tensão gira em torno do acesso a medicamentos da classe GLP-1, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, a exemplo da tirzepatida.

É importante ressaltar que os sindicatos não aceitaram a mudança nas regras de acesso, mas a categoria acabou aprovando o Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) com essa alteração sob a promessa de que, em contrapartida, o custo seria menor para os beneficiários. 

A nova regra condiciona o uso dessas medicações à prescrição exclusiva por médicos do Programa Cuidar. No entanto, a prática demonstrou que a Saúde Petrobras não se preparou estruturalmente para absorver essa transição, causando graves transtornos.

A empresa prometeu que haveria uma transição segura para a alta demanda, na qual “ninguém seria prejudicado”. Contudo, o discurso esbarrou na realidade do sistema. 

Antes, vale ressaltar que esses medicamentos são utilizados não apenas para o controle da obesidade, mas fundamentalmente para o tratamento do diabetes, o que deixa ainda mais grave a falta de acesso.

Trabalhadores e trabalhadoras, especialmente do Rio de Janeiro, denunciam que o prazo estabelecido limitando o Benefício Farmácia a receitas exclusivas do Programa Cuidar gerou um caos imediato, pois os usuários simplesmente não conseguem marcar consultas devido à escassez de profissionais credenciados.

Para a categoria, o problema não é apenas de transição, mas um déficit perene: sem a ampliação imediata do número de médicos credenciados, o estrangulamento será ininterrupto e a restrição de acesso ao programa continuará prejudicando os beneficiários, especialmente no caso das “canetas emagrecedoras”.

 

 

O que diz a Petrobras versus a realidade nas bases

Em resposta à escalada de reclamações, a Petrobras emitiu um ofício em 15 de maio de 2026, abordando as ações para garantir a continuidade do tratamento com medicamentos da classe GLP-1 via Benefício Farmácia. 

A empresa reconheceu a mudança na regra de cobertura, que torna necessário o acompanhamento de um médico do Programa Cuidar para a emissão da receita.

De acordo com o documento oficial da companhia, as medidas mitigatórias incluem:

  • O estabelecimento de um período de transição a partir de 15 de maio de 2026.
  • A aceitação excepcional de receitas de médicos externos ao Programa Cuidar durante essa fase de adaptação, cujo objetivo é contornar problemas como a alta demanda, a sobrecarga na agenda do Cuidar e a indisponibilidade do remédio no mercado.
  • A exigência de que o beneficiário, no entanto, já esteja inscrito no Programa Cuidar/Atenção Primária para usufruir da transição.
  • A ampliação da disponibilidade de agenda do hospital Sírio-Libanês, com aumento da equipe, das horas de atendimento e a inclusão de sábados.
  • A disponibilização de consultas com enfermeiros da equipe de saúde da família, tanto para orientações burocráticas quanto para interconsultas com o médico de família, visando priorizar pacientes com receitas perto do vencimento.
  • A criação de fluxos de transbordo entre os canais da Saúde Petrobras e do Sírio-Libanês.
  • A implementação de uma sala de operação assistida para ajudar na priorização das agendas.
  • A orientação para contatar o Sírio-Libanês pelo telefone ou WhatsApp (11 4090-1346) em caso de falha nos aplicativos. 

LEIA O OFÍCIO NA ÍNTEGRA


Apesar do documento afirmar que o benefício farmácia aceitaria receitas de qualquer médico durante o período de transição, os trabalhadores das bases relatam que na prática isso não está acontecendo. Os pacientes de Norte a Sul do Brasil continuam tendo pedidos negados.

 

 

Burocracia, falta de transparência e laudos

A gestão das aprovações tem sido descrita como uma “loteria” pelos beneficiários. Há relatos de pedidos de tirzepatida que são aceitos, enquanto outros são rejeitados de forma aleatória, mesmo quando prescritos sob as mesmas condições e pelos mesmos médicos. 

A categoria exige coerência e transparência da operadora do plano de saúde, além de explicações claras que justifiquem as recusas, para que o trabalhador-paciente possa buscar a assistência adequada junto ao seu médico.

Outro entrave diz respeito à exigência constante de novos laudos médicos para acessar medicamentos contínuos. Muitas dessas doenças requerem tratamentos a longo prazo ou vitalícios, tornando injustificável e exaustiva a exigência de retorno constante ao médico, especialmente considerando a enorme dificuldade de conseguir agendamentos.

 

 

Descontos sem transparência: o mistério do Pequeno Risco e a falha nos sistemas

Além dos entraves assistenciais, denúncias recentes apontam para práticas abusivas e ilegais de cobrança. Beneficiários relatam que foram debitados em folha pelo “Pequeno Risco” da Petrobras Saúde referente ao mês de junho, porém o plano de saúde não forneceu o extrato financeiro correspondente para conferência.

Ao buscar os canais oficiais de atendimento para solicitar o documento, os trabalhadores são surpreendidos. Mensagens do suporte via WhatsApp revelam que a própria operadora afirma não saber se o desconto em salário ocorreu. 

Mesmo após o beneficiário confirmar que o desconto já consta em seu contracheque e no salário depositado, a Petrobras Saúde informa que não sabe quando o extrato financeiro será disponibilizado, alegando a “permanência de uma instabilidade temporária nos sistemas”. 

A falta de acesso prévio ao descritivo das cobranças fere os direitos do consumidor e levanta sérios questionamentos jurídicos.


Diretrizes de luta

O colapso na rede de atendimento da AMS não se restringe às medicações para diabetes e obesidade. A FNP compilou uma série de diretrizes essenciais para desafogar e qualificar o plano de saúde da categoria petroleira:

  • Fim da restrição e ampliação da telemedicina: Não restringir o acesso às “canetas emagrecedoras” apenas aos médicos do Programa Cuidar e ampliar as opções de teleatendimento para além da parceria com o Hospital Sírio Libanês.
  • Medicamentos complexos e Alto Custo: Facilitação e padronização do acesso ao Canabidiol e a remédios de manipulação. Em relação ao Benefício Farmácia, exige-se o fim das reiteradas negativas para medicamentos de alto custo sob a alegação de uso off label, prática que ocorre mesmo com prescrição do médico assistente e que tem forçado muitos pacientes a recorrerem à via judicial para não interromperem seus tratamentos.
  • Cobertura cirúrgica: Inclusão e facilitação da cobertura para cirurgia robótica.
  • Assistência domiciliar: Melhorias no Programa de Assistência Domiciliar (PAD), garantindo suporte aos pacientes acamados ou com mobilidade reduzida. É urgente a revisão da remuneração dos credenciados, que frequentemente denunciam valores muito abaixo dos praticados no mercado; essa defasagem gera alta rotatividade de profissionais e graves interrupções de tratamentos devido à constante troca das equipes de saúde.
  • Atendimento presencial no Ediser: Transferência do atendimento presencial da AMS do NeoOffice para a sede da Petrobras no estado de Sergipe, situada na Rua Acre, 2504, bairro América, em Aracaju.

A discrepância entre os protocolos desenhados pela empresa e a dificuldade crônica das pessoas em serem atendidas revela uma crise estrutural do sistema de saúde suplementar. 

Enquanto a Saúde Petrobras não investir no credenciamento maciço de profissionais, não garantir transparência financeira e não simplificar os fluxos de aprovação, ofícios e promessas servirão apenas como paliativos para um sistema que ruma ao colapso.

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