Punições arbitrárias na RPBC expõem lógica do lucro acima da vida

No dia 20 de janeiro, dois petroleiros da Refinaria Presidente Bernardes de Cubatão (RPBC) foram punidos pelo gerente de produção da unidade. Ambos, técnicos de operação do grupo 5, foram submetidos a uma suspensão de três dias.

A alegação da gerência é de que os empregados utilizaram indevidamente, na sala da URC durante o serviço, equipamentos da empresa. Outro argumento é de que um dos trabalhadores foi flagrado “cochilando”. Mas os fatos, como a categoria já deve saber, não são tão simples assim. Vamos a eles.

Um antigo problema
Em primeiro lugar, é preciso deixar evidente um elemento absurdo desta história: em nenhum momento os empregados tiveram direito de defesa, em nenhum momento eles tiveram a oportunidade de apresentar a sua versão da história. A gerência, demonstrando total favorecimento aos argumentos do “denunciante”, dispensou a necessidade de qualquer esclarecimento. Este é o primeiro ponto.

Em segundo lugar, embora a punição tenha sido assinada pelo gerente de produção, o responsável por esta suspensão arbitrária e desproporcional foi o supervisor do grupo que, aliás, há tempos influencia negativamente a ambiência de todo o setor. Não é novidade pra ninguém, nem mesmo para os gerentes, que este senhor estraga o ambiente de trabalho com sua postura autoritária. Qualquer um que se coloque no seu caminho corre sérios riscos de ser perseguido. A empresa, omissa, nada fez até agora e nem parece disposta a fazer. Afinal, tem assinado cheques em branco a cada ação injusta deste supervisor.

Um dia antes, uma “coincidência”
No dia anterior ao fato que gerou a punição, um dos trabalhadores punidos (por ter fechado os olhos por alguns segundos) havia discordado deste supervisor sobre a execução de uma tarefa. O desentendimento, se é que assim podemos dizer, foi gerado por uma situação que se repete – infelizmente – em todas as unidades da companhia: de um lado, o trabalhador que quer realizar os serviços com segurança, seguindo as normas e padrões estipulados pela própria Petrobrás; de outro lado, um chefe que não hesita em acelerar a execução dos serviços, mesmo que isso coloque em risco a segurança da unidade e dos trabalhadores.

O episódio relatado aqui é sintomático neste sentido: a unidade, que estava retomando suas atividades por TRIP, iria aos poucos voltar ser restabelecida. No entanto, contrariando o procedimento correto, o supervisor pressionou o operador a realizar – ao mesmo tempo – diversas tarefas. O que ele pretendia era, a qualquer custo, acelerar o processo e garantir, com isso, a produção da unidade o mais rápido possível. No entanto, por ser experiente e perceber o risco das tarefas exigidas, o operador se recusou a colocar em risco a sua vida e a segurança da própria refinaria, reduzindo-se a realizar o serviço antes acordado com o próprio supervisor!

Por isso, não resta dúvidas: os trabalhadores punidos são vítimas de perseguição. Não é obra do acaso, ou mera coincidência, o fato deste supervisor encontrar uma razão qualquer para punir os empregados um dia após ter suas ordens absurdas rejeitadas.

De quem é a culpa?
Não resta dúvidas de que uma das medidas necessárias, além de cancelar esta punição absurda, é o afastamento imediato deste supervisor do setor. A força de trabalho e o Sindicato entendem que não há mais clima para uma boa convivência entre os trabalhadores e este empregado que um dia já foi também “chão de fábrica”, mas que agora se sente o dono do pedaço.

Não é de hoje que esse Capitão Gancho (apelido que ganhou após o evento) vem prejudicando os trabalhadores. Mesmo sabendo que a ambiência no grupo sempre foi ruim, em vez de arrumar a Casa anteriormente, a Gerência Setorial – erradamente – mudou os trabalhadores de grupo. O resultado está aí: um supervisor sem liderança, se sujeitando a um papel mesquinho de leva e trás à chefia pra punir os trabalhadores e se promover, tornando o ambiente de trabalho insuportável.

É bom lembrar que este supervisor, quando era operador na área, devido a um evento seria punido e todo o grupo de trabalho, unido, fez a chefia recuar. Em outra situação, o mesmo chegou a “desbandejar” uma torre por erro operacional – dando prejuízo material para a empresa. Mas nada disso é levado em contato, afinal é mais fácil punir o “peãozinho”.

Liderar é ter a confiança da equipe, saber lidar com as dificuldades e conhecer as deficiências. São critérios básicos para entender principalmente os seus colaboradores. Fazer caça às bruxas e saciar a vingança a todo preço não é a postura de um líder. Neste sentido, está mais do que esgotada a relação deste supervisor com os trabalhadores.

Entretanto, não podemos criar ilusões: este não é um problema específico deste senhor, fruto apenas de sua inabilidade ou postura autoritária. Boa parte das ações truculentas adotadas por este supervisor é responsabilidade direta da empresa, direta da gerência. Afinal, a serviço de quê está a pressão exercida pelos chefes imediatos? A serviço da produção a qualquer custo, a serviço do lucro – ultimamente obtido com o aumento da jornada e a redução do quadro mínimo. Neste sentido, mais do que conivente, a direção da companhia é quem – em última instância – estimula a proliferação de supervisores, coordenadores e gerentes cada vez mais autoritários.

A categoria está no limite
Além do que foi exposto acima, é preciso lembrar ainda que a decisão é injusta mesmo na hipótese do trabalhador punido ter cochilado. Afinal, não é de se espantar que o trabalhador tenha pegado no sono: além do horário, eram mais de 3h30 da manhã, naquele dia ele iria dobrar o seu turno. Ou seja, ele ficou por 16 horas dentro da refinaria, à disposição da empresa. E não foi uma situação atípica, que aconteceu por uma excepcionalidade: esta é a regra dentro da RPBC, porque a gerência se recusa a aumentar o efetivo da unidade, ao mesmo tempo em que terceiriza setores antes primeirizados (a exemplo da manutenção) e perde operadores em transferências, sem a reposição do quadro perdido.

Por isso, nos indignamos com a postura do supervisor que, ao entrar na sala na surdina, disse ao operador que estava sentado na sala: “vocês ainda querem aumentar o quadro?”. Sim, senhor supervisor, não apenas queremos, como esta é uma das principais lutas da categoria petroleira nos últimos anos. Luta criada pela própria companhia, quando resolveu aumentar o seu caixa à custa dos trabalhadores, à custa de jornadas cada vez maiores. As sucessivas dobras na operação é apenas um exemplo desta realidade preocupante.

Dois pesos, duas medidas
Por fim, não poderíamos deixar de lembrar outro caso – este tratado de forma bem diferente pela gerência. Há alguns meses, não sem motivo, um determinado supervisor foi denunciado após praticar por anos a fio assédio moral e desrespeito com toda a sua equipe de trabalho. A lista de agressões não é pequena e vamos, abaixo, relembrar apenas algumas das muitas testemunhadas pelos trabalhadores.

– Afirmou a toda equipe que o trabalho de preenchimento de relatório de turno estava uma “merda”, fato esse já divulgado no informe ?Petrolino? do Sindipetro LP.
– Coação moral e psicológica, causando até afastamento por estresse de operador.
– Impor aos operadores novos assumir área em detrimento de todos os demais de outros grupos, sem respeito ao tempo de ambientação e treinamento devido.
– Afirmar aos operadores que é o melhor supervisor da RPBC, porém, sem considerar que os operadores sob seu comando são bons.
– Impor compensação compulsória para cipistas do grupo por permuta em dia de folga sem consentimento (mesmo que isso gere dobra) – retaliação objetiva aos trabalhos da CIPA.
– Desrespeito ao ACT por não liberar código 1052, sob a alegação de não haver comunicação com antecedência suficiente de acordo com o seu julgamento.
– Retaliação aos operadores do grupo ao indagar que trará eventual de outro grupo por não ver capacidade nos trabalhadores do seu grupo.
– Assediar moralmente os trabalhadores, acusando-os de conluio por não assinarem padrões e LV?s.

Eis que mesmo após tudo isso, denúncias ratificadas pelos trabalhadores, este supervisor foi submetido a uma comissão viciada – que tinha entre seus integrantes um amigo íntimo do acusado. E apesar da comissão entender que o supervisor era de fato autoritário, a punição dada a ele foi uma viagem a Salvador para “retreinamento”. Para coroar com chave de ouro a medida punitiva da empresa, o sujeito (segundo comentários de corredor) está cotado para ser o futuro Cotur. Devemos imaginar, portanto, que haverá uma ótima ambiência!

Desta forma, se comprova na realidade novamente a política de dois pesos, duas medidas adotada pela companhia. Com o peão, o tratamento é rigoroso, sem direito de defesa. Com os chefes, o castigo são viagens ao Nordeste e promoções.

Punir os trabalhadores sem critério, sem direito a defesa e de forma desigual gera clima de insegurança e, logo, prejudica toda a ambiência. Com isso, ainda há outros desdobramentos aos trabalhadores como o aumenta do índice de afastamento e incidente/acidente da unidade. E, ao contrário do que os gerentes pensam, não aumenta em nada a produção dos trabalhadores.

O sindicato exigirá explicações para a gerência local e Corporativa, além de dar todo respaldo jurídico aos prejudicados. E, com isso, vamos nos unir contra o assédio deste supervisor (e de muitos outros) que já vem de longa data.

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